Cinema e a democratização das mídias.
Há um tempo queria escrever sobre esse tema envolvendo cinema e a democratização das mídias. A associação entre esse dois termos traz inúmeras consequências para o cinema, não somente para esse meio, mas tudo a que se refere a expressão ou comunicação. No entanto, como a nossa análise está voltada a sétima arte, iremos direcionar o esforço de nossa investigação para o cinema.
Não irei falar aqui das inúmeras consequências positivas que a democratização oferece ao cinema e àqueles que são amantes da arte, simpatizantes ou ainda apenas querem uma experiência nesse campo. Não colocarei a forças nesse aspecto, até porque acho que todos nós poderemos encontrar várias coisas a respeito sobre esse assunto. Mas nesse texto quero encarnar o personagem que ao fazer a oposição a esse tema, oferece um tipo de reflexão que pouco vejo falarem. Assim oposição é necessária.
Contudo é importante frisar que não sou contra a democratização dos meios, ao contrário, sou ativista. Faz-se pertinente dizer isso, pois tenho certeza que irei ferir a idealização de muitos ao pensar sobre esse ponto, especialmente sobre a banalização que a democratização das mídias trazem ao cinema. É aquela idéia tão brasileira em nosso cinema e que parece ser o slogan de inúmeros ativistas da sétima arte, dita por Glauber Rocha: "uma idéia na cabeça e uma câmera na mão". Aqui começo a questionar uma das consequências, talvez a mais nociva ao cinema como arte. Desse modo, faço uma cisão ao enunciar que nem todo filme é arte. Seria um pouco da idéia da Escola de Frankfurt que não irei me estender, pois tornaria esse texto muito cansativo.
Voltando a idéia de Glauber que nos revela a necessidade de incentivar a execução de filmes ao pronuciar a concepção de uma idéia e uma câmera, coisa típica da democratização ou popularização das mídias, coloco aqui já dois aspectos: Falta de conhecimento e de um mínimo de estrutura. Primeiro sabemos que um filme não se faz apenas com uma idéia e uma câmera. O processo da cadeia produtiva fílmica vai muito mais além do que essa concepção simplista do fazer cinematográfico. E só pra não citar todas os aspectos de produção, daria um exemplo abstrato da concepção de autor de André Brazin. Se realmente o processo de feitura de um filme fosse apenas uma idéia e uma câmera a concepção de autor de André Bazin estaria totalmente resolvida.
O outro aspecto e acredito que seja o mais interessante para reflertimos sobre o que a idéia de Glauber nos mostra é a de falta de conhecimento. Se Glauber pudesse refazer essa idéia acredito que ele colocaria a palavra livro, ou melhor, conhecimento do meio. E aqui reside o problema da democratização. No momento em que você dar possibilidades para execução ocorre a banalização, pelo fato das pessoas não estarem preparadas. Por outras palavras, a democratização não ajuda no amadurecimento do cinema como arte se as pessoas que fazem filme não amadurecerem no conhecimento e compreensão da arte. É incrível o número de pessoas fazendo filme. Isso é indiscutível e louvo pelos quatro cantos que tem que se fazer filme. Mas também é indiscutível o quanto de obras pobre que acabamos assistindo. O número de filmes aumentam e parece que pouco muda, pois os bons filmes ainda são seletos.
E a problemática desse aspecto é que produtores acham que é desnecessário conhecer a história, as escolas e teorias do cinema, bem como assistir filmes. Acham que a necessidade é apenas ter uma idéia na cabeça e saber manipular uma câmera. Essa concepção dita por Glauber e que logo após o mesmo reconheceu que não era bem assim, acabou e continua perpetuando nas mentes de ativistas ou de pessoas que julgam-se cineastas ou diretores de fotografia sem conhecer praticamente nada sobre cinema, como já muito ouvi as pessoas pronunciarem: "sou cineasta" ou "sou diretor de fotografia".
Esse fenômeno emerge com a popularização das mídias e traz um problema pouco discutido que é a qualidade dos produtos. E esse aspecto precisa ser estimulado. Não há como fazer filme se você não gosta de assistir a filmes ou procurar conhecer mais sobre os escritos de cinema. E digo mais, não basta assistir os filmes da Globo, pois como coloquei acima nem todo filme é uma obra de arte. Existem os filmes de puro entretenimento em que você apenas fica passivo e assisti a uma explosão de cores e cortes sucessivos que nada acrescentam.
O cineasta russo Andrei Tarkovski em seu livro Esculpir o Tempo deu algumas diretrizes sobre a questão da obra de arte. Essa se faz muito mais complexa e não envolve apenas instinto ou iluminação, mas conhecimento profundo da arte. Tarkovski nos diz que a obra de arte tem que ser um equilíbrio de princípios opostos. E poucas pessoas querem conhecer sobre esses princípios que na verdade é apenas um aspectos entre tantos, pois hoje, todos se dizem cineastas.
Os meios de produção atualmente estão acessíveis, graças a Deus, mas ainda estamos incapazes de sabermos utilizá-los da melhor forma. Assim, como o filósofo Gilles Deleuze, também questiono: "Em que isso ajuda no desenvolvimento e amadurecimento do cinema?". Se reflertimos com atenção nesse aspecto perceberemos que pouco mudou quando se faz cinema como arte na era da democratização das mídias, pois as obras de arte no cinema ainda são escassas. Por aqui finalizo, para não deixar mais esse texto mais exaustante, pois na era da democratização pouco se busca lê, tudo tem que ser rápido e curto. No entanto termino dizendo: "uma idéia na cabeça, uma câmera na mão e livros e filmes na outra".
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