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segunda-feira, 20 de junho de 2011




Plágio, Homenagem e Inspiração.

Certo dia assisti a um filme do grande cineasta alemão Ernst Wilhelm, ou como é mais conhecido, apenas Wim Wenders. Wim Wenders é uma das poucas relíquias de diretores que ainda continuam vivo e em atividade. É uma das figuras expressivas do Novo Cinema alemão. No entanto, o objetivo desse texto não é falar sobre a figura do cineasta alemão, embora não deixaria de ser interessante e muito instrutivo para quem ver o cinema como um meio além do entretenimento.
O filme a que me remeti acima era o denominado Alice nas Cidades (1974). E enquanto deixava-me conduzir pela maestria de Wim Wenders, cada vez sentia-me mais familiarizado com a história da garotinha que percorria todas as partes das cidades em busca de sua avó com a ajuda de um jornalista que retornava dos Estados Unidos para a Alemanha. A partir disso, cresce entre a criança e o jornalista uma grande amizade.
Bom, não sei se nessas poucas linhas escritas, alguém poderá sentir uma espécie de dejà vu, ao ter a sensação de já ter visto o filme, ou essa história. Se o filme de Wim Wenders não fosse de 1974, categoricamente eu diria em voz alta, sem receio de estar cometendo alguma injustiça, que Wenders fez um cópia do filme brasileiro Central do Brasil de Warter Salles. Contudo se a sentença anterior não é verdadeira a inversa não deixa de ser falsa. Assim posso dizer em voz alta que “Central do Brasil de 1998 é uma cópia de Alice nas Cidades de 1974!”. Você pode encontrar todos os elementos que ligam uma obra a outra: uma criança, uma pessoa mais adulta; elas buscam um parente da criança; é um filme de viagem (road movie); a criança e a pessoa adulta criam uma afinidade, etc.
Central do Brasil junto com Carlota Joaquina, princesa do Brasil (1995) de Carla Camurati são e foram filmes importantíssimos da retomada do cinema brasileiro. Sendo que Central do Brasil, como todos sabem, foi um filme com ótima crítica e muito premiado, sendo indicado ao Oscar como melhor filme estrangeiro, perdendo para o filme italiano A vida é Bela (1997) de Roberto Benigni. Será que Central do Brasil não ganhou ao prêmio porque a banca do Oscar deve ter percebido esse plágio  ou seria inspiração de Walter Salles?
Aqui entramos no ponto principal desse texto: o que é plágio, homenagem e inspiração? Essa tríade parece ter as fronteiras conceituais cada vez mais tênue, suave que se torna em uma tarefa exastante em tentar defini-la, por isso não pretendo entrar nesse aspecto conceitual, mas trazer a tona alguns casos e deixar várias perguntas a se pensar.

Walter Salles na época de Central do Brasil, pelo que pude acompanhar, nem comentou ou tocou no nome de Alice nas Cidades ou de Wim Wenders para dizer que o filme fazia uma homenagem ou foi inspirado na obra do alemão. Acredito que tampouco o alemão chegou a ver Central do Brasil, se não estaria reclamando seus direitos autorais. Além do mais, para não sentir-me culpado com essa afirmação, antes de escrever esse artigo dei uma conferida no site de Central do Brasil para investigar se havia alguma referência ao filme de Win Wenders nem que fosse dizendo que o filme desse cineasta havia inspirado Walter Salles, caso que não encontrei. Desse modo podemos dizer que Walter Salles cometeu um crime de plágio?

Alice nas Cidades (1974)


Bom, para não ficar apenas criticando cineastas brasileiros, evitando assim de ser posteriormente acusado de anti-nacionalista, trago para esse artigo o famoso, aclamado e revolucionário estético do cinema pós-moderno do qual muitas pessoas assim gostam de adjetivá-lo, Quentin Tarantino, o responsável por obras como Cães de Aluguel, Kill Bill, Bastardos Inglórios, Pulp Fiction, etc. Quentin Tarantino, ator de formação e cineasta americano é um tipo de diretor que gosta de anunciar que está sempre fazendo uma homenagem ao cinema e a sua história. Aqui lanço mais um questionamento: podemos dizer que Quentin Tarantino nada inventou, mas apenas fez uma cocha de retalhos?
Pois bem, todos seus filmes apresentam homenagens. Sabe-se que o diretor é um fissurado em cinema e uma enciclopédia fílmica. Isso o faz ser um diretor que poderia ser classificado como o “cineasta das homenagens”. Não como Brian de Palma que em Os Intocáveis (1987) claramente fez uma homenagem a Sergei Eisenstein e a sua antológica cena da escadaria de Odessa em O Encouraçado de Potemkin (1925) ao usar a cena do carrinho de bêbe em seu filme. Quentin Tarantino age de maneira diferente. Suas homenagens tornam-se várias dentro de um mesmo filme, por isso disse acima que seus filmes são uma cocha de retalho, porque realmente o são. Em Kill Bill: volume 1 (2003) parece que 50% do filme possui alguma referência, no meio acadêmico denominamos isso de “citação”. Mas na citação sempre há o credito dado ao autor responsável pelo frase ou concepção. Nesse sentido poderíamos afirmar que Quentin é um plagiador, já que ele não credita todas as suas citações em sua obra? E como no cinema poderia ser creditado? Caso a se pensar.

Me ocorre agora uma canção de Legião Urbana que parece-me se encaixar perfeitamente nessa discussão. Não a canção, mas uma frase dela que diz: “(...) quais as palavras que nunca foram ditas?”. Poderia ser esse o caso do cinema? Será que não há nada mais a dizer que não tenha sido dito? Ou melhor, não há mais nada o que filmar e como filmar que não tenha sido já realizado? Seria tudo “cópia da cópia” como disse Tyler Durden em Clube da Luta (1999) de David Fincher, ou caso prefiram por poder parecer mais original a frase de Aristóteles ao enunciar que nada se cria, mas tudo se cópia? Ainda mais nessa era que vivemos em que tudo é imagem, em que as mídias se tornaram popular.

Poderia citar outras inúmeras obras que fazem homenagens (ou seria inspiração? plágio?) e outras que são acusadas de plágio como: Paranóia (2007) de Steven Spielberg que “inspirou-se” em Janela Indiscreta (1954) de Alfred Hitchcock e esqueceu-se de comprar os diretos autorais do cineasta britânico. Inclusive esse caso de compra de direitos autorais para relançar uma obra fílmica clássica é usual no cinema pós-moderno, especialmente para o cinema americano que vive relançando obras clássicas ou então recentes, mas de outras praças como o filme chinês Conflitos Internos (2002) de Siu-fai Mak que foi relançado (remake) como Os Infiltrados (2006) de Martin Scorsese. Tão curioso é esse tema que Siu-fai em entrevista disse que sentia-se tão ganhador do Oscar de melhor filme como Scorsese se sentia, já que de acordo com o diretor Os Infiltrados pouco ou quase nada alterou Conflitos Internos, tal fato que este crítico que assistiu os dois filmes pode assegurar.

Então fica a pergunta: O que é plágio, homenagem e inspiração? É impossível não fazer mais nada de original? O cinema ou a arte em geral estão em crise? Chegamos ao limite da nossa criatividade? São vários questionamentos a responder, enquanto isso não nos espantemos caso um dia possamos olhar algo que tenhamos feito assinado por outras mãos, já que tudo se "cópia, nada se cria".

Acima: Os Infiltrados. Abaixo: Conflitos Internos


Um comentário:

  1. 1 - Mick Jagger certa vez ironizou: "Quando a "homenagem" é grande demais, melhor chamar a polícia..."
    2 - As mídias populares tem seus ciclos de autofagia, onde só buscam inspiração no que já foi testado & assimilado pelas massas.

    3 - Cinema ainda é uma linguagem jovem, seu potencial máximo está longe de ser explorado.

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